
Para nossa alegria, mais pessoas vão poder conhecer um pouco da praia do Sangano. É que estamos mais uma vez no Viajenaviagem. Quem quiser conferir é só clicar aqui.

Assim como existe o conceito de cidades irmãs, poderia ser inventado também o de praias irmãs. Desse modo, poderíamos declarar Sangano como praia irmã da Pipa, RN (ou de Arraial D’Ajuda ou alguma praia escondida do Ceará). A princípio, o parentesco pode parecer distante, mas não esqueçamos que um dia estivemos unidos por em um só continente.
Em Sangano, tudo atrai a mira do olhar de uma forma quase plástica. A primeira visão evidencia as cores e formas da natureza de uma maneira intensa. Seus paredões de falésias são impressionantes, grandiosos. O mar, tranquilo, dá boas vindas a quem olha do alto.
A após quase 2 horas de estrada, bem conservada e muito bonita, por sinal, a recompensa é mais do que válida. O mar é agradável, bom para nadar, a areia é fina e as ondas ótimas para quem gosta de um bom banho.
No quesito colorido, Sangano difere das suas irmãs brasileiras pelo tom mais amarelado da sua terra, mas a beleza, com certeza, faz jus ao parentesco.
Barra do Kwanza, Sangano e Miradouro da Lua. Mais alguns lugares espetaculares para conhecer aqui em Angola. Já estava na hora…Depois de ter ficando em casa no domingo anterior e, consequentemente, sem muito assunto e fotos para um novo post aqui, ontem foi possível dar uma descontada. Valeu muito a pena.

Bem, fotos não dão a dimensão do que é esse lugar. Teria que ser uma puta câmera, com uma puta lente e, óbvio, clicada de um helicóptero. Mas infelizmente a viagem não conta com patrocínio para essa super produção.

Ontem eu dormi pensando que apesar da distância dos grandes centros, todas as dificuldades de acesso e a qualidade da banda larga, que não ajuda, nunca ouvi tantos sons legais e diferentes quanto nesse curto período que estou aqui. Nessa jornada, a música tem sido companhia fundamental e cada vez mais presente em todos os momentos. Não falo só de música angolana, que estou apenas começando a conhecer - tendo cuidado para separar o joio do trigo para não enterrar o pé no terreno movediço do "exótico" -, mas de todo tipo de música. Tenho a sorte de trabalhar em uma sala onde todos ouvem, gostam de conhecer e de trocar novos sons. E isso, de certa forma, ajuda a deixar o ambiente mais tranquilo e faz o trabalho faz fluir com mais leveza.
Um cara que eu tenho ouvido muito é Just Jack. Recomendo e sei que vai, em breve, fazer a cabeça de muita gente. O álbum Overtunes, recém lançado, é pop e é perfeito. O cara não se apega muito a nenhum estilo e passeia por várias influências. São melodias solares com letras muito boas. Os hits são I talk Too Much, Life Story e a sensacional Mourning Morning. Outra descoberta, que para muita gente já é “das antigas”, mas para mim é novidade é Lokua Kanza. Ele nasceu no Congo, tem profundidade musical, estudou os clássicos, já tocou no Brasil e faz músicas de uma beleza impressionante, como Kumba Ngai e Sallé. É ouvir e levitar. Junto com esses, tenho ouvido muito também bandas como Glass Candy, Professor Genius, Boss AC (de Cabo Verde, muito bom) e, do Brasil, The Twelves e Kassim +2. Tem tudo no soulseek, no emule e no myspace.
Junto com a música os livros. E depois de “Quem me dera ser onda”, um livro-quase-um-conto leve e divertido do angolano Manoel Ruy, quem está mandando no criado mudo agora é o “O outro pé da sereia”, do escritor moçambicano Mia Couto. A profundidade e beleza da sua narrativa cheia de poesia e de imagens desconcertantes e a capacidade de inverter o pensamento do leitor, fazendo-o olhar de outro ângulo situações corriqueiras, estão me impressionando muito. Sem contar que a história dos personagens é mesmo sensacional: a relação de Mwadia, que tinha “corpo de rio e nome de canoa” e Zero, que tem em seu pescoço cicatrizes que ele diz serem guelras, herança da metade de sua alma que é peixe. Nessa história, aculturação, crenças antigas, mistérios de serias e padres, busca da identidade cultural e referências à colonização africana se misturam num romance que, com certeza, merece todos os prêmios que vem ganhando. Altamente recomendado.
Pra mim, uma bom programa no sábado foi assitir ao show de Paulo Flores. Ele com certeza está entre os mais populares músicos aqui de Angola. Suas letras celebram a vida, refletem o dia-a-dia do país, a paz recém conquistada, mas sem esquecer das mazelas que afligem a maior parte da população que aqui vive. Já cantou com Gil, fez show no Pavilhão Africano da Bienal de Veneza e aqui é bastante respeitado por seus pares. Sua música é calcada em ritmos locais como o semba. Sábado passado tive a sorte de ver um show dele. Muito bom. O show fazia parte de um evento cultural com performances e instalações. A intenção era ser intimista, mas não demorou muito e a plateia já estava dançando.



Pois bem, sai-se de Luanda para ir ao Mussulo da mesma maneira da que se atravessa de Valença para Morro de São Paulo: de barco. No estacionamento onde se deixam os carros, pode rolar uma certa confusão por conta dos putos que se oferecem para tomar conta do veículo. No pier, você negocia o preço com os barqueiros que vão levar você (pagamos 800 Kwanzas ida e volta). Mas a dica é só pagar na volta com o serviço completo para evitar frequentes “malentendidos”.
A sensação ao chegar é de um lugar que mistura Boipeba com Ilha do Frades. Já na chegada do barco ao pier, você cai direto em um bar muito legal, o Bassulo. Espreguiçadeiras confortáveis, mar limpo e tranquilo com profundidade e temperatura perfeitas para nadar ou dar apenas um bom mergulho são as maiores atracões do lugar. A música também estava muito boa: som lounge e até um pouco de minimal house cheguei a ouvir. O único senão e a rapidez do serviço. Se você conhece o nível de velocidade “Dorival Caymmi”, acredite, pode existir algo ainda mais lento.
Mas existe mais diversão para além do Bassulo. Você pode escolher alugar um jet sky (para quem gosta) ou fazer longas caminhadas pela praia, que é mais a minha. Para se ter uma ideia do nível de preservação, você caminha na praia inteira pisando em siris de tamanho razoável e, colocando a mão na areia, você pega fácil, fácil dezenas de mabangas, um crustáceo que é primo da nossa lambreta – em apenas 1 hora pegamos mais de 10 kg, sem brincadeira nem o menor esforço. Apesar de ter uma bela área de mangue, a praia tem areia branca e fina. Outro bom programa é atravessar a ilha e chegar ao outro lado, onde o mar é aberto e as ondas generosas. Não o fiz porque o sol estava de rachar e trazer protetor solar não era nem a última das minhas preocupações antes de viajar.
O Mussulo salvou meu domingo e me levou para o lado de Angola que eu quero conhecer bem mais: o das belezas naturais, em busca de um pouco de tranquilidade que se contraponha à opressão urbana cinzenta que, às vezes, é tão forte nessa cidade.




De volta à África pela primeira vez.
De volta à África pela primeira vez.