
As mulheres do meu pai

Daqui de cima.
Daqui, do alto de um prédio qualquer do Maculusso, observo a cidade ser envolvida por um calor que deixa tudo apático e sonolento, o dia brilha sua luz intensa e cheia de polaridades. As nuvens do cassimbo agora são uma lembrança distante. Lá em baixo, sob o sol nervoso, as zungeiras destilam conversas enquanto calmamente vendem frutas, imunes a tudo. Passantes observam e seguem os seus destinos diários. Um homem de fato azul escuro sonha com a neve sob o sol de 40graus. Perto do Natal todos os sonhos costumam virar realidade, mesmo aqui, em Luanda, onde tudo é beleza e caos, e onde esses elementos se alinham numa métrica única, numa dissonância quase melódica. Cada passo da multidão lá embaixo é um metrônomo que rege essa musica urbana feita de torres, guindastes, tratores, máquinas e gente apressada. São apenas 4 horas desde o último sono, despertado ainda cedo, mas, lá embaixo, a cidade. Essa realidade que carrega um grau de distopia tão grande, uma anomalia social de difícil entendimento. Nessa interzona, onde emoções e sentimentos se constroem e se desfazem com uma rapidez vertiginosa, os olhos são levados a caminhos que desaguam em outros e outros tornando-se muitas vezes dúvidas e labirintos, mais do que certezas. Mas lá embaixo, a cidade. E só a cidade.
Kuduro
Com iogurte e com afeto ; )
Não sou perfeito. Angola também não é. Por isso, apesar de tudo estar correndo bem, tem horas que dá vontade de ir embora. Pegar o primeiro voo e parar de viver em terra estrangeira. Sem nenhum motivo particular. Simplesmente porque dá vontade mesmo e aí fica difícil controlar. Quem já passou muito tempo fora sabe como é isso. Aconteceu hoje, às 4:30 da manhã. Foi a hora em que alguns problemas resolveram dar uma passadinha pela cabeça, como um grupo que sai para fazer uma grande farra, entra num bar, faz a maior algazarra e horas depois vai embora de forma tão repentina quanto chegou. Ainda bem que às 6:00 tudo já tinha passado. Desci e fui direto para a geladeira comer alguma coisa.

Uma das coisas que eu mais gosto é iogurte. Como café faz mal pro meu estômago, me acostumei com suco ou iogurte no café da manha. E isso faz quase 20 anos. Em todo esse tempo, devo ter tomado uns 5 capuccinos, para não dizer que não tomei nenhum tipo de café. Quando fui ao supermercado pela primeira vez aqui, uma das coisas que mais me deixaram intrigados foi o fato do iogurte ficar fora das prateleiras refrigeradas. Achei que fosse coisa daquele supermercado
No viagem

Para nossa alegria, mais pessoas vão poder conhecer um pouco da praia do Sangano. É que estamos mais uma vez no Viajenaviagem. Quem quiser conferir é só clicar aqui.
Sangano e as praias irmãs




Miradouro da Lua

Barra do Kwanza, Sangano e Miradouro da Lua. Mais alguns lugares espetaculares para conhecer aqui em Angola. Já estava na hora…Depois de ter ficando em casa no domingo anterior e, consequentemente, sem muito assunto e fotos para um novo post aqui, ontem foi possível dar uma descontada. Valeu muito a pena.

O Miradouro da Lua é um dos lugares mais impressionantes que já conheci. Com sua paisagem desoladoramente lunar, lembra um cenário de ficção científica só que com um mar imenso por trás. A altura do mirante chega a ser vertiginosa de tão alta.
Bem, fotos não dão a dimensão do que é esse lugar. Teria que ser uma puta câmera, com uma puta lente e, óbvio, clicada de um helicóptero. Mas infelizmente a viagem não conta com patrocínio para essa super produção.
Musicas e livros para viagem

Ontem eu dormi pensando que apesar da distância dos grandes centros, todas as dificuldades de acesso e a qualidade da banda larga, que não ajuda, nunca ouvi tantos sons legais e diferentes quanto nesse curto período que estou aqui. Nessa jornada, a música tem sido companhia fundamental e cada vez mais presente em todos os momentos. Não falo só de música angolana, que estou apenas começando a conhecer - tendo cuidado para separar o joio do trigo para não enterrar o pé no terreno movediço do "exótico" -, mas de todo tipo de música. Tenho a sorte de trabalhar em uma sala onde todos ouvem, gostam de conhecer e de trocar novos sons. E isso, de certa forma, ajuda a deixar o ambiente mais tranquilo e faz o trabalho faz fluir com mais leveza.
Um cara que eu tenho ouvido muito é Just Jack. Recomendo e sei que vai, em breve, fazer a cabeça de muita gente. O álbum Overtunes, recém lançado, é pop e é perfeito. O cara não se apega muito a nenhum estilo e passeia por várias influências. São melodias solares com letras muito boas. Os hits são I talk Too Much, Life Story e a sensacional Mourning Morning. Outra descoberta, que para muita gente já é “das antigas”, mas para mim é novidade é Lokua Kanza. Ele nasceu no Congo, tem profundidade musical, estudou os clássicos, já tocou no Brasil e faz músicas de uma beleza impressionante, como Kumba Ngai e Sallé. É ouvir e levitar. Junto com esses, tenho ouvido muito também bandas como Glass Candy, Professor Genius, Boss AC (de Cabo Verde, muito bom) e, do Brasil, The Twelves e Kassim +2. Tem tudo no soulseek, no emule e no myspace.
Junto com a música os livros. E depois de “Quem me dera ser onda”, um livro-quase-um-conto leve e divertido do angolano Manoel Ruy, quem está mandando no criado mudo agora é o “O outro pé da sereia”, do escritor moçambicano Mia Couto. A profundidade e beleza da sua narrativa cheia de poesia e de imagens desconcertantes e a capacidade de inverter o pensamento do leitor, fazendo-o olhar de outro ângulo situações corriqueiras, estão me impressionando muito. Sem contar que a história dos personagens é mesmo sensacional: a relação de Mwadia, que tinha “corpo de rio e nome de canoa” e Zero, que tem em seu pescoço cicatrizes que ele diz serem guelras, herança da metade de sua alma que é peixe. Nessa história, aculturação, crenças antigas, mistérios de serias e padres, busca da identidade cultural e referências à colonização africana se misturam num romance que, com certeza, merece todos os prêmios que vem ganhando. Altamente recomendado.
Paulo Flores no Elinga


O concerto foi no Elinga. O primeiro bar que fui por aqui. Um lugar muito legal, que funciona como bar e centro cultural frequentado normalmente pelo povo mais alternativo. O local possui um teatro, onde acontecem peças e shows, mas fez fama mesmo pelo bar, que abre de quinta a sábado, onde é possível ouvir dub, reggae, dnb, house, techno e o que mais passar pela cabeça do dj que estiver tocando no dia.

É nós na fita

Salvo pelo Mussulo

Depois de uns dias lutando contra um vírus de computador que encheu meu saco aqui, atrasando inclusive esse novo post, tudo que eu precisava era de um fim-de-semana tranquilo, inconsequente e sem maiores preocupações. De preferência em um lugar bem interessante, que eu ainda não conhecesse. Um paraíso com praias desertas, águas transparentes, areia fina, uma baia com mar calmo de um lado e do outro, mar aberto com boas ondas para quem gosta de surf ou pegar jacaré. Difícil? Pode ser. Mas isso existe e se chama Mussulo. Não é nenhum segredo de estado, nem um daqueles lugares escondidos com acesso complicado. Pelo contrário, o Mussulo é uma ilha que fica a apenas 15 minutos de barco de Luanda e é um dos balneários preferidos do povo por aqui. O que faz ela ser ainda mais perfeita é a sua beleza natural, ainda pouco degradada, apesar de estar tão perto da cidade.





Estou acrescentando mais dois links ao Vavê. São blogs de amigos. O primeiro deles é o Eu tava aqui pensando e blábláblá, de Cury, que o povo da música aí de Salvador já conhece bem. Cury tem um texto muito legal. É sempre divertido e ótimo contador de histórias. Tá lançando livro em breve. O outro é de Daniel, planejador mais que competente e que apesar de ter começado recentemente como blogueiro, tem se mostrado bastante prolífico e com uma antena giratória apontada para captar muitos movimentos em diversas áreas. É o Em Ítaca. Podem clicar que valem a pena. Por último, esse post é dedicado a Ubaldo, que faz aniversário hoje. Parabéns e um conselho: guarde o meu caruru.
16 Toneladas Angola

Luvas brancas e a cidade da varanda do Fino



Cacoaco

É setembro. Por aqui, o cassimbo está quase no fim, mas insiste em adiar a sua despedida. Os dias permanecem nublados por um cinza que contrasta com o rosa-salmão das casas antigas. O sol da nova estação espreita e, aos poucos, vai com moderada obstinação tentando surgir em pequenas frestas. Aqui e ali, é possível ver uma luz diferente da dos últimos dias. Ela é mais frequente agora. Mas dura apenas alguns momentos. Prenúncios de um verão que todos aguardam ansiosamente. Hoje estou reunindo as memórias como quem arruma uma casa nova, cheia de lembranças de um tempo que ainda está por vir. É estranho como ocupamos o nosso tempo quando estamos distantes. São pequenas fugas para que a gente não possa nunca se anoitecer.

Estar longe de casa é ser forte e vulnerável ao mesmo tempo. É existir sendo sempre o outro. Objeto de olhares e desconfianças. É ser colocado em um mostruário para que todos notem as diferenças. E se ver por outros olhos enquanto se é constantemente visto e transformado.


As fotos são da feira do Cacoaco. É uma espécie de Sete Portas daqui. É padronizada, tem infra, estacionamento, espaço ordenado, mas, ainda assim, um lugar interessante de se visitar. Pode não ser tão original como as de Benfica (bem focada em artesanato) e Roque Santeiro (uma mega São Joaquim local onde é possível encontrar de tudo), mas é um bom passeio quando a intenção é comprar ingredientes para uma moqueca de domingo para relembrar a casa e reunir os amigos.
